Falência da Saraiva encerra livraria em shoppings, simboliza crise do varejo tradicional e marca avanço da Amazon no mercado brasileiro de livros.Falência da Saraiva encerra livraria em shoppings, simboliza crise do varejo tradicional e marca avanço da Amazon no mercado brasileiro de livros.

Em meio à falência decretada em 2023, a Saraiva encerra lojas em shoppings de SP, amarga liquidação de ativos, transfere o domínio para a Amazon e se transforma em estudo de caso do colapso do varejo físico nacional, digitalização acelerada, juros altos e concorrência estrangeira no comércio brasileiro de livros

Fundada em 1914 pelo imigrante português Joaquim Saraiva, a livraria que começou como pequena casa editorial em São Paulo atravessou um século de mudanças no mercado editorial até se transformar em rede multimídia presente nos principais shoppings do país. Durante décadas, a Saraiva virou referência para estudantes, geeks e leitores que viam nas lojas físicas um ponto de encontro, pesquisa e cultura.

A partir de 2010, porém, o avanço do comércio eletrônico, a mudança no hábito de consumo e o acúmulo de dívidas iniciaram uma trajetória de deterioração que culminaria, em outubro de 2023, na falência decretada pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Em 2025, o leilão do domínio saraiva.com.br para a Amazon simbolizou o fim de uma era e consolidou a marca como ícone do colapso do varejo tradicional de livros no Brasil.

De editora de 1914 à rede multimídia dos shoppings

A trajetória começou em 1914, quando Joaquim Saraiva abriu uma pequena editora em São Paulo, focada inicialmente em obras jurídicas e técnicas. Com o tempo, a empresa ampliou catálogo, autores e formatos, entrando de forma progressiva no varejo de livros.

Ao longo das décadas, a marca ocupou espaços estratégicos em grandes centros urbanos, especialmente nos shoppings de São Paulo. Lojas como a unidade do Shopping Metrô Tatuapé se tornaram referência regional para lançamentos, sessões de autógrafos e encontros de fãs de cultura pop e literatura. O modelo de negócio apoiava-se em grandes áreas de venda, mix de livros, eletrônicos, games e papelaria, reforçando a imagem de “loja multimídia” em vez de simples livraria.

Esse desenho parecia sólido em um ambiente de consumo baseado em lojas físicas e fluxo intenso de clientes em corredores de shopping. Com o avanço do e-commerce e a pressão por preços mais baixos, porém, os custos fixos elevados começaram a pesar cada vez mais na estrutura da empresa.

Dívida de R$ 675 milhões e falência após recuperação frustrada

O quadro crítico ganhou números claros quando a varejista passou a acumular dívida de aproximadamente R$ 675 milhões ao longo da última década. Em 2018, a empresa ingressou com pedido de recuperação judicial, tentando reorganizar passivos, renegociar com credores e manter parte da operação viva.

O plano previa fechamento de lojas deficitárias, corte de custos e maior foco no comércio eletrônico. Na prática, a medida veio acompanhada de demissões em massa, atingindo cerca de 3 mil funcionários na época do pedido de recuperação, com impacto direto em empregos ligados ao varejo de livros e entretenimento.

Entre maio e setembro de 2023, a companhia ainda promoveu o fechamento de 13 unidades consideradas estratégicas, incluindo pontos em shoppings de alto fluxo. Mesmo assim, a geração de caixa não foi suficiente para reverter o quadro de insolvência. A falência acabou se impondo como desfecho depois do descumprimento do plano de recuperação e da incapacidade de honrar compromissos com credores.

Decisão judicial e reconhecimento da falência como inevitável

Na fase final, a própria administração e os representantes legais da empresa passaram a admitir que o cenário era irreversível. Em petição apresentada à Justiça, o escritório TWZ Advogados, responsável pela defesa, apontou que a Saraiva enfrentava “crise grave e insanável” e que haviam se esgotado todas as alternativas viáveis de continuidade da atividade empresarial.

Com base nesse quadro, a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo decretou oficialmente a falência em outubro de 2023. O juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho fundamentou a decisão no descumprimento do plano de recuperação judicial, no colapso da capacidade de pagamento e na necessidade de liquidação ordenada para satisfação dos credores.

A sentença, na prática, encerrou a presença física da marca nos shoppings e determinou um processo de liquidação dos ativos remanescentes, incluindo estoques, créditos judiciais e direitos associados ao uso do nome no ambiente digital. A falência transformou a empresa em um caso emblemático de como a combinação de dívida alta, modelo de negócio defasado e reação lenta à concorrência digital pode ser fatal.

Liquidação, estoque remanescente e venda do domínio para a Amazon

Após a decretação da falência, o administrador judicial iniciou o levantamento e a venda dos ativos. A massa falida ainda contava com:

  • Estoque de livros e itens de papelaria avaliado em cerca de R$ 21 milhões
  • Créditos judiciais estimados em aproximadamente R$ 250 milhões, dependendo de decisões e prazos processuais

Esses valores passaram a compor o patrimônio a ser liquidado para pagamento parcial de credores. Ao mesmo tempo, a empresa deixou de renovar o registro do domínio “saraiva.com.br”, abrindo caminho para que o endereço fosse levado a leilão.

Em fevereiro de 2025, de acordo com registros setoriais, o domínio foi arrematado pela Amazon, que já figura como uma das principais forças globais do varejo digital. O movimento foi lido pelo mercado como um gesto simbólico: o endereço eletrônico da antiga líder de livrarias físicas migrou para as mãos da gigante que ajudou a redefinir o consumo de livros e produtos de entretenimento pela internet.

Símbolo do colapso do varejo tradicional e mudança de hábitos

O fechamento das últimas lojas em 2023 e a falência formalizada marcaram não só o fim de uma empresa centenária, mas também a consolidação de uma mudança estrutural no mercado. Lojas amplas, baseadas em estoque físico elevado e aluguel caro em shoppings, passaram a perder competitividade diante de plataformas digitais com custos menores e logística mais ajustada à demanda.

A pressão do e-commerce, o enfraquecimento do consumo em ciclos de crise econômica, a alta dos juros e a mudança no hábito de leitura empurraram a Saraiva para um cenário de difícil retorno. Mesmo reconhecida como marca querida por leitores e frequentadores de shopping, a empresa não conseguiu traduzir esse capital simbólico em um modelo digital robusto o bastante para compensar a perda de relevância das lojas físicas.

Para consumidores e ex-funcionários, a lembrança que fica é a de corredores repletos de livros, eventos literários e experiências culturais que marcaram gerações. Para analistas de mercado, o caso da Saraiva entra definitivamente no repertório de exemplos de como a ausência de adaptação rápida pode acelerar a falência em setores pressionados por tecnologia e novos hábitos de consumo.

Na sua visão, a falência da Saraiva foi resultado inevitável de um mercado em transformação ou poderia ter sido evitada com uma estratégia digital mais agressiva, antes do colapso das lojas físicas?

Autor

  • Bruno Teles

    Falo sobre tecnologia, inovação, automotivo e curiosidades. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro.
    Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil.
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2 thoughts on “Dívida de R$ 675 milhões, 3 mil demitidos e falência: Saraiva, livraria centenária dos shoppings de SP, encerra operações, tem domínio leiloado para a Amazon e vira símbolo do colapso do varejo tradicional no Brasil”

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